sábado, 12 de março de 2016

Sobre raízes e gavetas

Mexi naquela terra sem a certeza de que estava fazendo da maneira correta, mas entendendo a necessidade de intervenção. Foi meio instintivo. Você sabe, às vezes os confinamentos artificiais se tornam sufocantes para a vida que se pretende expandir. 

Os vasos e as plantas constituem boas metáforas a respeito do comportamento humano. E há matéria que se condicione de verdade, pensando nos bonsais ou em corpos alterados por insistência de confinamento constante. Somos adaptáveis e buscamos alternativas. Até o ponto em que a vida não é mais possível. E o tempo ou as condições disso são muito variáveis.

A natureza é boa para nos contar sobre renovação, sobre ciclos, relações entre espécies e com o meio. Ela é o meio, ou a somatória de seus elementos. Enfim, mas os vasos... eles são micro-reproduções. Aí quando a planta fica sufocada, é preciso oxigená-la e você teme matá-la por completo, na tentativa disso. É complicado, porque não deixa de me ocorrer que você está fazendo um exercício de ok, criar uma vida e cuidar dela, proporcionando sua existência, mas, ao mesmo tempo, limitando seu potencial de liberdade. Maluco.

As gavetas, apesar de serem espaços de confinamento também, elas conservam e armazenam. As coisas sem vida, claro. Veja, o problema das coisas conservadas é que elas estão ali, disponíveis. Você até esquece que as coisas estão ali, mas se você não mexeu, se ninguém mexeu, elas ainda permanecem. A ação do bolor e do pó pode nos dar alguma dica sobre o tempo já demasiadamente passado. E o que dizer sobre fungos e outros bichos mais, daqueles escrotos, indesejáveis, que da coisa sem vida esquecida, criam vida ali?

Não sei. Me veio à cabeça a imagem de ruínas, sabe? Sei lá. Algo de belo, algo de triste, no caso das ruínas. No caso das gavetas, somente ocupação de espaço além do necessário. 
Coloquei de volta na gaveta no automático. Falta atitude para se livras das coisas, né? Eu sei. É ridículo uma mulher desse tamanho com medo do que tem dentro do armário.

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Cruzei com ela na cervejaria, por acaso. Falou coisas interessantes, percebi afinidade, retomei a idéia de que poderia me apaixonar por ela. Ela me perguntou, sobre o passado: "Passou, né?". 
Titubeei e disse que sim. Mas entendi que uma hora ou outra passaria.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulher, à beira de um ataque de nervos, e absurdos do cotidiano

Seguem alguns causos elencados aleatoriamente pela memória para breve reflexão:

Causo #1


Chefe dizendo que estava em balada com sua namorada. Constrangida com uma passada de mão em sua bunda, quis ir embora. Disse que ficou "COM CIÚMES" e que, como o rapaz estava cercado de amigos, esperou que estivesse sozinho para atropelá-lo com o carro na saída da balada. Na mesma conversa, dizendo-se freqüentador assíduo há anos de carnaval de trios elétricos em Salvador, conta que as mulheres usavam dois shorts, um por cima do outro, pois os homens tinham o costume de "enfiar o dedo" e as mais "desavisadas", conseqüentemente, se davam mal.

Causo #2

Boy dizendo que "as mulheres nunca faziam nada direito", se referindo às bandas de rock femininas.

Causo #3

Pai dizendo que eu deveria me acostumar quando, com aprox. 11 anos, disse estar incomodada quando homens mexiam comigo na rua. Disse me sentir um pedaço de carne ambulante, muito medo e muito ódio. Vontade de encher de porrada. Vontade de me vestir de preto, de freak, de homem - qualquer coisa que intimidasse e/ ou assustasse, ao invés de apetecer.

Causo #4

Amigo segurando o copo da namorada e dizendo "já chega para ela por hoje".

Causos #5

Padrasto dizendo para mãe não cortar o cabelo. Padrasto e amigo dizendo para eu não cortar o cabelo, pois gostava dele comprido, deixava "feminina".

Causo #6

Amigo / boy do cursinho gritando comigo porque minhas unhas estavam mal pintadas, demonstrando nojo e reprovação, pois eu parecia que "nem sabia ser mulher".

Causo #7

Estacionamento do Ibirapuera vazio, pela tarde, eu andando. Motoqueiro passa assobiando. Resposta automática no dedo médio, seguindo andando. Motoqueiro retorna, dirige devagar e me acompanha, olhando fixamente. Passa um carro com uma mulher dentro, observa a situação e diz "é foda, né?", mas não fica por perto. O dedo do meio já está baixo e o medo substitui boa parte da raiva. Ninguém mais passa e o motoqueiro contorna novamente e me acompanha. O capacete não ajuda. Apenas sigo, ou tento. Quando chego próximo ao auditório, ele estaciona à minha direita e paro para gritar muito com ele. Faço um discurso, sem nenhum ensaio e vomito coisas como "qual é o seu problema?", "o que é que você quer?", "quem você pensa que você é?", "não sou pedaço de carne exposto em açougue pra ser tratada dessa maneira" e, o mais bonito "se fosse a sua mãe ou a sua irmã andando na rua, você tinha respeito!". Ouço desculpas (!) e o cara segue. Encontro dois amigos e começo a chorar.

Causo #8

Ex-amigo me chamando de promíscua.

Causos #9

Carona na Raposo Tavares com advogado, idoso, ex proprietário de empresa, classe alta falida. Mão na perna e historinha de quem quer saber o que uma menina como eu faria com um homem da idade dele. "Para esse carro agora", "eu quero descer, para no acostamento". "Eu não te dei essa liberdade" e outros vômitos mais. Chefe abafando o caso no dia seguinte, fazendo piada, pois se tratava de amigo de longa data, talvez preocupado com minha reação. Eu dizendo que "assédio sexual era um assunto muito sério", muito chocada com seu posicionamento medíocre. Outros comportamentos medíocres se evidenciaram.

Causo #10

Passada de mão inconfundível no quesito intencionalidade no meio do bate-cabeça em show de banda punk autodenominada antifascista.

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Eu não queria que fossem casos de assédio, na maioria. Me dá nos nervos e no saco. Especialmente quando me dizem que eu tenho que me acostumar ou falam com normalidade perante coisas absurdas que são costumeiras. Queria entrar na subjetividade da coisa e falar, racional e tranquilamente, que o problema começa na educação. Que se trata de problema cultural, envolvendo a separação de homens e mulheres em seus condicionamentos "biológicos" a papéis masculinos e femininos, que geram muitos problemas sociais e individuais por conta das combinações possíveis entre identidade, gênero e sexo. E que uma parte é orientação e outra é o que não se escolhe; é o que se sente. Se reluta ou se assume, pois na ordem das escolhas está o racional e a ação. Quanto ao sentimento e ao sentido, cabe (auto) aceitação e respeito.

Queria pontuar a remanescência da tal coisa determinista, apesar de ter sido matéria e debate teórico do século XIX. Aí disseram que a mulher, por ter a possibilidade física (se não tiver nenhum problema de saúde, claro) de parir, tinha nisso aí a sua razão de existência. Wow. Pesado: função de servir de invólucro à perpetuação do DNA, o indispensável depósito do esperma. Éfe de xis de qualquer coisa e você não é o dono da equação. A máquina de xérox, que espalha mini-cópias versionadas, sem autenticação. Mas tem gente que se anima com essa idéia de tentar se projetar novamente no mundo. Muitos nomes e sobrenomes intencionados por aí.

Aí inventaram que, no passado tão-tão distante, o homem caçava e a mulher ficava na caverna (quê? de onde vem isso?). E disseram que a mulher deveria ficar em casa, que o mesmo homem proveria dinheiro e comida. E o arranjo todo é de dependência e limitação das faculdades, exigindo proteção da vida de uma parte mediante a agressividade natural do masculino, ainda que na pegada de divisão do trabalho a intenção seja boa de partilha de funções. E ela nunca tem a mesma capacidade do que ele, a não ser que seja coisa de mulher. E o pai nem desenvolve o cuidado, porque é coisa da mãe. E a mãe, frustrada, que se casa arranjada, obrigada ou por falta de possibilidade de ver ou querer coisas para si, também não desenvolve o cuidado, especialmente se vive no meio de ódio e já é fruto de violência. Ou cuida, mas só porque segue o protocolo cristão. E muita gente segue o protocolo. Ninguém ama, porque o amor é coisa dos iguais. E os filhos nascem, muitas vezes sem amor, sem vontade, sem prazer, sem intenção de ser. Mas se cumpre o protocolo e a função social.

Na minha cabeça tudo se mistura... o porquê eu não quis ser mulher, o porquê eu não quis ser mãe. O porquê eu não quis ser hétera. Porque eu ainda odeio rosa e todo o processo de idiotização que o "feminino" envolve. E o que é fofo, de repente é babaca, manjado, falso, mero protocolo automático, porque me coloca num lugar e num papel que eu não quero - nem para mim nem para você. Eu não quero papel, não quero ensaio, não quero espetáculo, nem platéia. Quero o freestyle das idéias e o "topo" do desbravamento curioso. Quero o "duvido" e o "por que não?". E o "porque sim" também. O "tamo junto" e o "é nóis".

É muito complicado. Falam de misandria e vou dizer que tem seu ponto. Aversão! Eu guardei muita violência, o que não justifica sua manifestação nesses termos, apesar de ser compreensível. Mas dá um nó na cabeça, aquela parte do que você sente. Não que eu quisesse sentir. O fato de eu não querer é inclusive boa parte do problema. E a gente sente muito e manifesta pouco e precisamos mesmo falar sobre isso. Como quebrar o maldito ciclo sem me quebrar e sem te quebrar?

Pessoalmente, queria desaprender e espalhar o desaprendizado. O reino das possibilidades; a tendência para a amplitude, e não para a restrição, pro confinamento. A capacitação do ser que se ambiciona melhor, que ousa a construção da igualdade plena mediante a desconstrução da desigualdade dada. O olhar que se enxerga e se esforça em se projetar no outro.

Não sentir ameaça de propriedade, do que é seu e só você pode usar ou permitir que outro use - o que é seu, afinal?  Mas empatia às dores, às violações, às castrações, aos condicionamentos. O querer para si precisava ser mais metafórico. Acho que gostaria mesmo que a carne fosse vida, e não tara. Que o corpo fosse menos tabu e mais totem, de repente. Que pudéssemos ser, por inteiro, e não pela metade. Que, mais completos, pudéssemos acrescentar mais aos outros ou ajudar na retirada de pesos desnecessários. Estabilizar ou equilibrar nossa penca balança.

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Não foi breve, mas tudo bem, o tempo vale. Por menos memória, menos espelhos e mais horizontes.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

I try so hard to express myself

...but the woman in me don't fade away.

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Pensando aqui. Pode ser assustador lidar com a exposição. E, para mim, é mesmo. Difícil lidar com a própria imagem e sua conseqüente destruição. Egotrip. Mas entendi que isso é processo necessário de reforma, reconstrução. É nossa constituição biológica a ser aceita. O tempo passa e deteriora. E lidar com a história e com o futuro é um desafio da humanidade, enquanto coletivo, inclusive.

O medo de não saber, o medo de não dar certo. Isso já não me assusta mais e cada um tem sua fórmula secreta para lidar com as incertezas e a dose de mistério do mundo. A gente só é o que pode ser, ela me disse - e eu ouvi. Aprendi algo sobre (mais) capacidade e (menos) controle.

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My mamma say baby be careful
If anybody comes to say I love you
My papa say baby I warn you
If anybody comes to say I love you

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Nada nada é meu. Nem o pensamento.

Aí que as coisas ficam desse jeito... lembranças fora do lugar, medo de retomar qualquer coisa ou uma coisa qualquer, uma demonstração desconsertante, uma provocação abafada, esbarrões daqueles que costumávamos fazer sem querer e de propósito também, frases usando a praga do "quase" e o contato por inteiro. 

Respiro fundo. 

Desabafo com os amigos, que me fazem refletir sobre as minhas obscenidades... como se gostasse de colecionar mini-dramas à toa e fazer metáforas com qualquer folha que cai perto de mim. Como se desse importância demais às coisas pequenas. E aí as estatísticas me assombram (ai as estatísticas), mais de 11 bilhões de pessoas só em São Paulo e o mundo sempre faz seus arranjos de esbarrões e coincidências.

"... mas cheguei à conclusão de que eu não posso acreditar mais na aleatoriedade (no caso me refiro às tantas vezes que nos cruzamos por acaso) do que nas coisas propositais. Eu sei que nem tudo é premeditado, mas as coisas certamente não são despropositadas."

Sem querer, a coisa já veio ao pensamento retomado pela memória. E aquela velha canção fica (me) tocando. E eu não sei o que fazer com isso. E esse papo de fé, a coisa toda da ordem dos eventos. Como faz a cabeça rodar! Me assolam o devir e o dever; como devo me posicionar perante os eventos do mundo? E perante as pessoas?

Pois bem, nada disso importa, pois vou voltar a ver estrelas em nova companhia. E volto para lá tendo me dedicado a me pensar no que eu quero, como me foi proposto (talvez de forma menos disciplinada do que deveria ter sido). Todas as velas foram queimadas, mas sinto que faltam definições, apesar das resoluções e revoluções internas todas. 

E vou prestar atenção sobre viver e se manter no presente, como ele me disse. A nota dele não dói meus ouvidos e sinto coisas boas. Mas a metáfora da pimenta, a idéia antiga e adolescente do "only happy when it rains", a insatisfação e o desejo que nos movem... tudo isso ainda me atormenta, por se tratar de coisas assim, imprevisíveis e aparentemente incontroláveis, de todos os lados e de todos os ângulos.




Eu que não fumo, queria um cigarro...

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Assumindo riscos e a tal da fé

[Ai, vida. Por que tantas metáforas?]

Como sempre, as charadas naturalmente saem da minha boca, ainda que sem intenção de serem. Disse pra eles algo sobre às vezes não termos o cadeado quando precisamos, às vezes até temos o cadeado, inclusive a corrente, mas ficou faltando a chave. Várias combinações desfavoráveis possíveis e muito mais plausíveis aí. Ele me disse (e eu escutei) a bobagem-nem-tão-bobagem-assim do Valar Morghulis, Valar Dohaeris.


As amarrações, os destravamentos e as passagens. Às vezes livres, às vezes não. Com o tempo, vamos conseguir o que queremos, exatamente da forma que queremos. Perto, acessível, prazeroso, tranquilo, instigante e desafiador. Like a dream coming true, se você quer ser piegas e mostrar que até o lado Disney tem seu encanto. Porque se não for pra ser por inteiro e de verdade, eu nem quero que seja - e nem você deveria querer.

The thing is... você vai precisar mudar. E se planejar direitinho. E tomar muito cuidado para não acabar abrindo mão das coisas importantes. No entanto, saber o que é importante e inegociável demanda muita análise crítica. E bolas. Saber o que você precisa, por outro lado, é apenas uma questão de disciplina do exercício da sua capacidade de projetar idéias no mundo. Comece a tornar tudo verdadeiro desdjah.




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"Eu não vou te mandar pro inferno
Porque eu não quero
E porque fica muito longe daqui"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

How much love you're gonna make



Ignorance is bliss when you're young enough to kiss and there is no need for pardons with the young. You know I've always felt old.

Be careful. With yourself and others. The desire for no hard feelings might trick you.
Watch the time. The permanence into the present might stuck you.
Sober up. They say that the absense makes the heart go fonder.
Sceptcism and Faith. Imagination and realization. Moving on is easy, but is it posible to dream on?
I wonder - and it is wonderfull. Great time for planning. 

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So over being daddy. Can't stop advising, though.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Se sienta a la mesa y escribe


Vaidade minha, confesso. Me importo e queria que ficasse bom. Tenho escondido aqueles versos como se o tempo por si só os fossem melhorar. Estão ruins e me falta habilidade na linguagem. Há algo que a prática deveria melhorar (mas eu ainda não a tenho), que o desejo deveria impulsionar e inspirar. Me incomoda realmente aquela parte fraudulenta que vez ou outra quer tomar espaço.

«con este poema no tomarás el poder» dice
«con estos versos no harás la Revolución» dice
«ni con miles de versos harás la Revolución» dice

Você me faz pensar que merece o requinte que não tenho ferramentas pra te proporcionar. O contrário curiosamente me parece verdadeiro e vejo encanto recíproco. Acho que talvez possamos mais e melhor juntos. Mas não abafe nem espalhe; sejamos precisos. Para que eu não morra afogada por você e nem você por mim - até que nem tanto esotérico assim. 


Porqué esperar para cambiar
de murga y de compás

[...pretentious shit]