Ela me perguntou sobre minhas mágoas e rancores - acho que num processo de renovar suas energias e tentar se livrar de suas próprias, tendo em vista o momento que se vivia. Desconversei, pensando numa conversa que já havíamos tido nesse sentido. Ela, sentada e fumando, insistiu.
Eu, com a mesinha nova de ponta-cabeça, apertando os parafusos sobre o tampo, respirei fundo.
Estive respirando fundo por todos esses dias, na verdade. Deixei o tabaco em casa. Precisava deixar coisas para estar aqui nesse momento, sentia.
Bom, falei. Lembrei do princípio de infarto dele, quando falei para ele também. Mas aqui não teve tanta raiva porque o tom não foi provocativo, penso. Porém, não há sutileza no palavreado que disfarce a natureza tóxica das coisas. Não guardo rancor porque sei que são coisas da vida. Sinto assimetria. Tentei suavizar de todas as formas. Sempre tentei respeitar muito as dores deles.
Ela me pediu explicações e exemplos. Ela repetiu comportamentos e me ajudou na argumentação com mais exemplos e demonstrações. Quem sabe, faz ao vivo - pensei agora. Disse que não havia muita participação na minha vida, que constato menosprezo de sentimentos e cobranças indevidas. Disse que não sentia a recíproca verdadeira com nenhum deles. Disse que sua depressão também havia me custado muito e a relembrei que vivi junto todas as dores dela em meu tempo de convivência. Quando se tratava das minhas, ou eu escolhi viver sozinha por assumir que eles não precisavam de mais problemas ou entao ela mesma tratou de ignorar os pedidos de ajuda e literalmente mandou que me virasse sozinha.
Sozinha. Sim. Há um ponto em que se é preciso dosar o discurso de sucesso sobre independência e a autonomia.
Consegui que ela escutasse. É duro quebrar a vaidade e a autodefesa dos outros. Disse coisas que acho que ela não sabia. Achei que ela soubesse, mas ignorasse. Parte de mim sempre considerou que ambos, além de depressivos, magoados e rancorosos, sempre escolheram olhar muito para si e ignorar os sentimentos dos outros.
E aí que doeu nela, né? Não dói pra quem fala, dói pra quem escuta. Expliquei acho que bem explicadinho. Ela foi chorar no banheiro, sentiu vergonha. Para ela é terrível quando se prova o erro dela. Falou em negligência, soluçando. Fiquei sem jeito, fazia tempo que não me ocorria nada parecido com aquilo tudo. Expliquei pra psicológa que tava tudo bem, mas a diferença era que ela era minha mãe e eu era filha, especialmente quando era criança. Queria dizer que a cultura do "engole o choro" também foi uma merda, mas dosei.
Aos vinte oito anos de idade. Sempre foram maiores abandonados. Não quero, tomara que não. Tenho muito (muito) medo da hereditariedade e da reprodução de valores sem filtro da crítica. E eu sei que o mundo é bem maior do que eu, mas entende? Achei importante. São 05:07 da manhã de domingo.
domingo, 15 de abril de 2018
terça-feira, 3 de abril de 2018
As memórias dele
Um dia ela me perguntou sobre ele, como quem quisesse justificar para si mesma de que o universo havia entrado em sua nova ordem cósmica, de forma perfeitamente previsível. Tenho cagaço do cosmo, lembrando aqui. Me incomodava profundamente a idéia de que havia algum tipo de "lição" naquela história toda, especialmente pela culpa que me assolava por saber desse meu comportamento viciado em rotas de fuga no esquema autocompensação (dor pelo prazer).
Lembro que ele não se achava inteligente o bastante. E eu gostava de me aproveitar disso. Um pouco, não muito. Era uma inversão de ordem da impressão primeira. Ele dizia que eu tinha a língua bifurcada. Ele sempre achou que eu estava sendo cruel com ele, mas, no fundo, acho que ele sabia que havia algo de cruel e compensatório também nele mesmo. Eu elogiava seu sorriso sinceramente. Estava interessada nele. Havia algo de interessante acontecendo em mim também e foi inevitável investigar.
Mas eu acho que a gente entrou numa guerra para ver quem cedia primeiro aos caprichos um do outro. Pedi pra ele parar, por favor. E eu também acho que foi por conta do abalo sísmico que voltei a pensar nisso tudo. Sabe como é... a gente sente coisas fortes e esquisitas que a gente não sabe de onde vem, de vez em quando.
Lembro que ele não se achava inteligente o bastante. E eu gostava de me aproveitar disso. Um pouco, não muito. Era uma inversão de ordem da impressão primeira. Ele dizia que eu tinha a língua bifurcada. Ele sempre achou que eu estava sendo cruel com ele, mas, no fundo, acho que ele sabia que havia algo de cruel e compensatório também nele mesmo. Eu elogiava seu sorriso sinceramente. Estava interessada nele. Havia algo de interessante acontecendo em mim também e foi inevitável investigar.
Mas eu acho que a gente entrou numa guerra para ver quem cedia primeiro aos caprichos um do outro. Pedi pra ele parar, por favor. E eu também acho que foi por conta do abalo sísmico que voltei a pensar nisso tudo. Sabe como é... a gente sente coisas fortes e esquisitas que a gente não sabe de onde vem, de vez em quando.
Homens fazem isso (sim, estou sendo sexista)... não fecham portas, só dão uma encostadinha.
- E as mulheres, como fazem?
quarta-feira, 28 de março de 2018
Pausa para o café
Trocando figurinhas já repetidas, disse a ele dos problemas de dissincronia. Ele constantemente se mostrava irritado por assumir que eu não conseguia manter o ritmo. Particularmente, sempre achei que ele poderia trabalhar melhor suas viradas. Descobriu que eu conseguia - e eu lhe disse para não se esquecer do problema da falta de prática. Já tínhamos tratado sobre a minha inconstância e ele sempre se mostrou no mínimo disposto às novidades, pois o(s) mesmo(s) ritmo(s) pode(m) ser cansativo(s) e entediante(s). Disse algo sobre não ter problema em apostar na coisa certa, aí contive o riso provocado pelo pensamento sobre nossas luas e qualquer outra bobagem arquetípica que viesse ao caso.
Forte e sem açúcar, por favor.
domingo, 18 de março de 2018
Talk about feelings
relief
noun UK /rɪˈliːf/ US /rɪˈliːf/
relief noun (HAPPINESS)
a feeling of happiness that something unpleasant has not happened or has ended.
relief noun (HELP)
food, money, or services that provide help for people in need.
relief noun (RAISED AREA)
a method of raising shapes above a flat surface so that they appear to stand out slightly from it.
specialized art a sculpture made from a flat surface in which the forms are raised above the surface.
Fonte: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/relief
noun UK /rɪˈliːf/ US /rɪˈliːf/
relief noun (HAPPINESS)
a feeling of happiness that something unpleasant has not happened or has ended.
relief noun (HELP)
food, money, or services that provide help for people in need.
relief noun (RAISED AREA)
a method of raising shapes above a flat surface so that they appear to stand out slightly from it.
specialized art a sculpture made from a flat surface in which the forms are raised above the surface.
Fonte: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/relief
terça-feira, 6 de março de 2018
Landscape
Remember that time, near the ocean? Remember that passion or that will? Keep that memory in mind. For all purposes.
Life is
to be felt.
It is not only about the view. You can actually sense goodness [and struggle] miles away. Make your path.
Life is
to be felt.
It is not only about the view. You can actually sense goodness [and struggle] miles away. Make your path.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Não deixa o samba morrer
Imagine um sotaque levemente português narrando:
- Vais a desistir das coisas? Vais a ficar sentado, vendo a vida passar, remoendo coisas pequenas?
- Me falta o impulso.
- Pois se já não é tarde, não tempos tempo a perder! You got one shot - e outras bobagens motivacionais. Bora, porra!
O plasma se forma quando uma substância no estado gasoso é aquecida até atingir uma temperatura tão elevada que faz com que a agitação térmica molecular supere a energia de ligação que mantém os elétrons em órbita do núcleo do átomo. Os elétrons acabam “soltando-se” e a substância torna-se uma massa disforme, eletricamente neutra e formada por elétrons e núcleos dissociados.
Dizem que o universo se constitui basicamente de plasma - é o estado físico do sol. E por aqui, mais raramente, podemos encontrar o plasma no fogo, nos raios, nas auroras polares e em alguns bens de consumo produzidos. O plasma pode conduzir corrente elétrica melhor do que o cobre, fluir como um líquido viscoso e interagir com campos elétricos e magnéticos, diferentemente dos gases.
- Vais a desistir das coisas? Vais a ficar sentado, vendo a vida passar, remoendo coisas pequenas?
- Me falta o impulso.
- Pois se já não é tarde, não tempos tempo a perder! You got one shot - e outras bobagens motivacionais. Bora, porra!
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Era feira de ciências. Eu não me lembro se era ele ou se era ela, mas havia uma apresentação sobre os três estados físicos da água. Aquela coisa dos estados da matéria, sólido, líquido e gasoso - também chamados de estados de agregação. Ah, tem também o plasma, que não tá nessa memória.
E o que faz ela mudar de estado físico? A temperatura e a pressão, certo?
Muito bem, para se atingir o estado sólido, os átomos ou moléculas ficam bem unidos por conta de forças elétricas intensas agindo sobre eles. Dizem que os átomos que formam essas substâncias possuem uma estrutura cristalina com formato regular, e essa estrutura fica se repetindo. A energia das moléculas é baixa e elas ficam meio que em repouso.
E o que faz ela mudar de estado físico? A temperatura e a pressão, certo?
Muito bem, para se atingir o estado sólido, os átomos ou moléculas ficam bem unidos por conta de forças elétricas intensas agindo sobre eles. Dizem que os átomos que formam essas substâncias possuem uma estrutura cristalina com formato regular, e essa estrutura fica se repetindo. A energia das moléculas é baixa e elas ficam meio que em repouso.
A liquidez envolve forças de ligação menos intensas, o que faz com que as moléculas fiquem mais afastadas umas das outras e movimentem-se mais livremente, o que também significa maior energia. O líquido possui, por isso, essa capacidade de ocupar espaços e preencher volumes.
O estado gasoso conta com praticamente a inexistência de força de ligação entre os átomos, que ficam separados uns dos outros por distâncias maiores do que nos estados sólidos e líquidos. Os gases possuem muita energia e movimentam-se desordenadamente, podendo ser facilmente comprimidos. Também assumem a forma e volume do recipiente em que são colocados.
O plasma se forma quando uma substância no estado gasoso é aquecida até atingir uma temperatura tão elevada que faz com que a agitação térmica molecular supere a energia de ligação que mantém os elétrons em órbita do núcleo do átomo. Os elétrons acabam “soltando-se” e a substância torna-se uma massa disforme, eletricamente neutra e formada por elétrons e núcleos dissociados.
Dizem que o universo se constitui basicamente de plasma - é o estado físico do sol. E por aqui, mais raramente, podemos encontrar o plasma no fogo, nos raios, nas auroras polares e em alguns bens de consumo produzidos. O plasma pode conduzir corrente elétrica melhor do que o cobre, fluir como um líquido viscoso e interagir com campos elétricos e magnéticos, diferentemente dos gases.
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