Ai, os não-lugares! Da permissão para existir O tal boleto a cumprir A minha abstenção - ou não [Que nada disso seja em vão] Dos papéis herdados ou adquiridos Das dores e golpes sofridos As ausências e permanências [O meu lugar nas ciências] Pois cientes estão De uma existência Sem qualquer resistência Ao uso das mãos Dos pés à cabeça Antes que eu me esqueça Cá estamos, E enfrentamos, Efemeramente Artística e solenemente
Sonhei com ele. Fazia tempo. Era a reencenação de um episódio na praça em que ele não se conformava porque eu trabalhava demais. Ele me disse que ninguém precisava trabalhar tanto. Eu achava que ele me entendia. Porque a mãe dele dava trabalho e ele tinha uma irmã, como eu. Mas o pai era parceiro. Tava junto. Nos shows e tudo mais, com a gente.
Confesso que a primeira vez que o vi entendi que se tratava de algo profético. Ele vivia me contando sobre a tal cerveja do Trotsky como algo que eu não poderia perder. Sabia que ele buscava algo de sociabilidade e identidade. Como quem está cansado de ser mudo e conselheiro, ele procurava seu espaço de liberdade e sublimava seu desejo no consumo de coxinhas e no uso da tão polêmica para mim cocaína. Sim, os bares são propícios para (tudo) isso. E às vezes ele se escondia de clientes, para que não desconstruísse a figura necessária para que sua cura pudesse ser executada.
E tudo isso aconteceu muito antes que eu buscasse refúgio em seu pequeno quarto de atendimento. O tempo passou e sua profecia se fez real. Antes de construir qualquer mito sobre mim mesma, eu já passava pela dificuldade trotskiana de não poder ser legitimamente aceita enquanto uma figura de poder e ter de aceitar a submissão ao popular camarada Lenin. Me restavam as análises em confidência, os relatórios detalhados e didáticos, os conselhos e as projeções inevitáveis.
Mas eu sou cética. E portanto os mitos não podem me servir. Nem mesmo aqueles que contamos em segredos a nós mesmos para acordarmos todos os dias em espírito de cumprir qualquer missão, porque não aceito a autoridade da ordem. E eu acho que isso é uma coisa boa - não fazer "o que precisa ser feito" dito por qualquer autoridade que não a minha própria. E muito embora eu confie em mim mesma, De omnibus dubitandum est.
E penso hoje nas estratégias de fuga, nas memórias de carne moída seguidas pelo transbordo das emoções e no fato de que eu nunca mais dancei.
Disse para ele e para ela que todos nós temos uma dose de opressor e oprimido dentro de nós. Ela me olhou como quem sabia do que eu estava falando; ele pareceu não entender muito bem como isso se encaixava de acordo com os autos que consultara mentalmente enquanto escutava minha explicação pessoal sobre o mundo.
Parte II
Contei para ela sobre quando era criança e me juntei com a minha "família" mais velha nos guetos de escola. Contei que roubei lanches e tinha raiva das crianças com seus lanchinhos caprichados trazidos de casa. Eu simplesmente pedia um pedaço para estranhos e comia - e isso era já muito transgressor. Inebriada pelo poder de dominação, cheguei a pedir um pedaço, a criança me deu, sem graça e depois eu saí andando com a comida dela. Mas eu agradecia, toda vez.
Parte III
A parte em que identifico a hipocrisia dela em se chocar e demonstrar que se importa com essa minha história infantil. Ela não (se) percebe. Há dinheiro para os outros, mas não para mim. É um problema de classe, eu sei. Eu sou a menina com o lanche que ela pede um pedaço, por favor, agradece e sai andando com ele.
Parte IV
Eu não tenho fé e a culpa é minha. Aprendi isso desde cedo. Quem discorda e duvida já não tem fé. Felizes são os iluminados e protegidos. Deslumbrados. Irresponsáveis. Por aqui não há otimismo, mas há justiça e autocrítica. Possibilidade de discordar, de se ter dúvida e, por fim, respeito pelo que pode e não pode ser, independentemente do que se acredita.
Olhei para o chão e percebi que as rachaduras da porta da frente avançaram seu terreno por todos os lados. As paredes e o teto também precisariam cobrir suas cicatrizes. Eu tento aprender com o passado, sabendo que sou fruto dele. Mas é paradoxal a necessidade de se libertar dele também.
Na prática, são pessoas e atitudes. Que operam sobre as próprias regras a não ser que eu imponha as minhas próprias. E essa luta eu não posso abrir mão, porque se chama autodefesa. É uma família de vales, de muitos ataques e de muita sombra sobre si própria. A geografia nos atrapalha e nos ajuda.
A língua, assim como nossa arquitetura, diferente dos hermanos, por aqui é tortuosa. Se esconde nas quinas surpresas de ruas que terminam. Não vamos pedir piedade. Nem um pouco de piedade. Para essa gente careta e covarde. Eu já disse: o dó é uma ferramenta de aniquilação da responsabilidade. Não há nada o que você possa fazer em relação a quem se tem dó e não há nada que ela possa fazer por ela mesma.
Do outro lado, a culpa. Também não. Se há pensamento o suficiente para uma decisão, não há porquê haver culpa. E é assim que deve ser. E nem sempre é. Porque as demandas por decisões também são distribuídas desigualmente. E as dores da sua suposta incapacidade só vão sumir quando você romper com a sua própria imagem.
Eu sei que você sempre me entalou a garganta. Que me fez vomitar. E eu sei que você sempre me fez saber que nunca estava bom, ainda que estivesse. A autodepreciação e a cultura de depreciar o outro. E eu também sei que os seus caprichos custam caro.
Dói ao sair porque ainda está em mim.
[E não sabemos ao certo o que há com vocês que vêm até mim]
Quando eu estava na faculdade, lembro de ouvir sobre algo ser “tautológico”. Lembro que um professor utilizou essa palavra para um fim (no caso se tratava de um fim histórico) que já estava dado, porém hoje pensei nela pela similaridade com a palavra redundância. É difícil lidar com as redundâncias.
Pois é. Outra expressão legal que eu aprendi foi sobre a “neutralidade axiológica”. Lembro de achar um grande sucesso conseguir traduzir todo aquele vocabulário distinto e decifrar o clube do livro em conversas de boteco. Ah, era tão perverso massificar o que foi construído para ser um rito de evocação de verdades anteriores ditas por distintos do passado! O preferidinho da galera era o Weber ou o próprio Marx. Sempre gostei do Durkheim. Pq ele era sistemático (piada redundante detectada). Ele trabalhava com dados, ele olhava o todo pra entender o particular. Essa é a definição de sociologia para mim. Vale dizer que eu costumava ser 10 em política e em antropologia, porém mediana na sociologia. Aí escolhi fazer o tcc em sociologia, hehe. Mas enfim, em contraposição aos clássicos mais práticos, tinha o Weber. Apesar dos “Três tipos puros de dominação legítima” ter consistido no grande “hit” para o qual pedi “bis” durante anos, achei particularmente irritante no Weber essa discussão toda sobre a tal da neutralidade axiológica. Acho mesmo que é a grande maquiagem que sustenta a legitimidade de alguém tomar qualquer decisão por você. Explico. Você pode confiar em um método, por exemplo o científico. Porém as redundâncias da própria ciência nos levam à separação entre observador e objeto da pesquisa. As condições de laboratório equiparadas à natureza, etc. Por mais que se acredite que seja antigível a menor interferência possível por meio de um método qualquer por parte do observador, o próprio ato da observação não pode ser aniquilado da narrativa lógico-argumentativa. Então acho ingenuidade ou mau caratismo esse negócio de associar qualquer aspecto ou pessoa “técnica” ao papel de avaliador imparcial sem que se observe a moralidade implícita do observador. Se é a melhor técnica, que fique claro a que ela serve. E qualquer correspondência com a nossa realidade sociológica atual que você pode ter feito lendo isso daqui não é mera coincidência. — A casa na árvore Como se sabe, ela representa um sonho infantil. Ela também representa a força criativa, o rompimento do tédio e da redundância. Independentemente de um sonho importado ou genuíno, precisamos de uma casa na árvore; ainda que ela não seja necessária, entende?