terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Desperdiçar

Inevitavelmente julgamos. Damos juízo de valor ao que está ou não está adequado, de acordo com a economia da nossa moralidade.

Eu bem me lembro, quando criança, a menina disse que queria viver a vida intensamente e eu disse que isso era falta de responsabilidade. E cá estamos, hoje, abraçando pelo medo ou pela consciência da finitude, cada pequeno segundo à nossa frente.

Se o volume do desperdício material pode ser facilmente mensurado (e, ainda assim, há quem o pratique), como fica o olhar sob o desperdício imaterial? 

O tempo, as ausências, 
As terríveis consequências 
As mudanças, ou não 
Os pensamentos em vão

Meus medos
Teus dedos
Co-ordenados
Experienciados

O gosto, as essências 
As novas vivências 
Tudo.
Menos a falta de possibilidades.


—

E o que será de nós? 

Nós 
somos o fim
do eu 
Mas vai passar
(?)






sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Das forças que atuam nas estruturas

Sabemos que depende do referencial, da direção, do sentido, se a carga é permanente ou acidental e do conceito de força. Saudade das aulas sobre resistência dos materiais. Aprendi tanto sobre a vida.

Acho que o passado, o presente e o futuro são forças atuantes nas nossas vidas. Influenciam a distribuição das cargas, sabe?

Perception *can be* a piece of reality.

E de todas as loterias, sortes e azares, físicas e metafísicas: estamos. E somos. Como em português gostamos de distinguir.

Entre todos os movimentos hipnóticos e fortalecedores, o agora me prende ou me solta. Ou me faz um carin. Ou reclama um tantin. E alimentamos o tempo. Que tem fome de vida. E nunca, nunca se sacia.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

E cá estamos

Ai, os não-lugares!

Da permissão para existir
O tal boleto a cumprir 
A minha abstenção - ou não 
[Que nada disso seja em vão]

Dos papéis herdados ou adquiridos
Das dores e golpes sofridos
As ausências e permanências
[O meu lugar nas ciências]

Pois cientes estão 
De uma existência
Sem qualquer resistência 
Ao uso das mãos 
Dos pés à cabeça 
Antes que eu me esqueça 

Cá estamos, 
E enfrentamos, 
Efemeramente
Artística e solenemente
O que há e o que não há

De onde estamos
Pra onde vamos
Que haja amor
 E algum juízo




quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Da dor nos ombros

Sonhei com ele. 
Fazia tempo.

Era a reencenação de um episódio na praça em que ele não se conformava porque eu trabalhava demais. Ele me disse que ninguém precisava trabalhar tanto. Eu achava que ele me entendia. Porque a mãe dele dava trabalho e ele tinha uma irmã, como eu. Mas o pai era parceiro. Tava junto. Nos shows e tudo mais, com a gente.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Do desejo de dançar

Confesso que a primeira vez que o vi entendi que se tratava de algo profético. Ele vivia me contando sobre a tal cerveja do Trotsky como algo que eu não poderia perder. Sabia que ele buscava algo de sociabilidade e identidade. Como quem está cansado de ser mudo e conselheiro, ele procurava seu espaço de liberdade e sublimava seu desejo no consumo de coxinhas e no uso da tão polêmica para mim cocaína. Sim, os bares são propícios para (tudo) isso. E às vezes ele se escondia de clientes, para que não desconstruísse a figura necessária para que sua cura pudesse ser executada.

E tudo isso aconteceu muito antes que eu buscasse refúgio em seu pequeno quarto de atendimento. O tempo passou e sua profecia se fez real. Antes de construir qualquer mito sobre mim mesma, eu já passava pela dificuldade trotskiana de não poder ser legitimamente aceita enquanto uma figura de poder e ter de aceitar a submissão ao popular camarada Lenin. Me restavam as análises em confidência, os relatórios detalhados e didáticos, os conselhos e as projeções inevitáveis.

Mas eu sou cética. E portanto os mitos não podem me servir. Nem mesmo aqueles que contamos em segredos a nós mesmos para acordarmos todos os dias em espírito de cumprir qualquer missão, porque não aceito a autoridade da ordem. E eu acho que isso é uma coisa boa - não fazer "o que precisa ser feito" dito por qualquer autoridade que não a minha própria. E muito embora eu confie em mim mesma, De omnibus dubitandum est.


E penso hoje nas estratégias de fuga, nas memórias de carne moída seguidas pelo transbordo das emoções e no fato de que eu nunca mais dancei. 

Eu não posso dançar.

Porque não estamos na mesma revolução.


Music shall be like an old ritual
For the spirit of collective bounding acts
Not a mechanical performance
Either an empty appearance
Made to impress
And to fulfill your own ego

I propose
We burn all the stages
'Cause there's nothing of value that can be shown 
in that hierarchical position
If you do not own your speech
You don't earn the mic

I, hereby,
Challenge you
To make me dance again
Set my freedom mode on once more

I won't speak in the fucking mic
Because I don't need to amplify my voice
You can hear me just fine



sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Sobre lanches, loucuras, neuroses, compulsões, fé e poder.



Parte I

Disse para ele e para ela que todos nós temos uma dose de opressor e oprimido dentro de nós. Ela me olhou como quem sabia do que eu estava falando; ele pareceu não entender muito bem como isso se encaixava de acordo com os autos que consultara mentalmente enquanto escutava minha explicação pessoal sobre o mundo.

Parte II

Contei para ela sobre quando era criança e me juntei com a minha "família" mais velha nos guetos de escola. Contei que roubei lanches e tinha raiva das crianças com seus lanchinhos caprichados trazidos de casa. Eu simplesmente pedia um pedaço para estranhos e comia - e isso era já muito transgressor. Inebriada pelo poder de dominação, cheguei a pedir um pedaço, a criança me deu, sem graça e depois eu saí andando com a comida dela. Mas eu agradecia, toda vez.

Parte III

A parte em que identifico a hipocrisia dela em se chocar e demonstrar que se importa com essa minha história infantil. Ela não (se) percebe. Há dinheiro para os outros, mas não para mim. É um problema de classe, eu sei. Eu sou a menina com o lanche que ela pede um pedaço, por favor, agradece e sai andando com ele.

Parte IV

Eu não tenho fé e a culpa é minha. Aprendi isso desde cedo. Quem discorda e duvida já não tem fé. Felizes são os iluminados e protegidos. Deslumbrados. Irresponsáveis. Por aqui não há otimismo, mas há justiça e autocrítica. Possibilidade de discordar, de se ter dúvida e, por fim, respeito pelo que pode e não pode ser, independentemente do que se acredita.

De omnibus dubitandum est 

A tatuagem dela. Eu. 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Vida no me trates mal


Olhei para o chão e percebi que as rachaduras da porta da frente avançaram seu terreno por todos os lados. As paredes e o teto também precisariam cobrir suas cicatrizes. Eu tento aprender com o passado, sabendo que sou fruto dele. Mas é paradoxal a necessidade de se libertar dele também.

Na prática, são pessoas e atitudes. Que operam sobre as próprias regras a não ser que eu imponha as minhas próprias. E essa luta eu não posso abrir mão, porque se chama autodefesa. É uma família de vales, de muitos ataques e de muita sombra sobre si própria. A geografia nos atrapalha e nos ajuda.

A língua, assim como nossa arquitetura, diferente dos hermanos, por aqui é tortuosa. Se esconde nas quinas surpresas de ruas que terminam. Não vamos pedir piedade. Nem um pouco de piedade. Para essa gente careta e covarde. Eu já disse: o dó é uma ferramenta de aniquilação da responsabilidade. Não há nada o que você possa fazer em relação a quem se tem dó e não há nada que ela possa fazer por ela mesma.

Do outro lado, a culpa. Também não. Se há pensamento o suficiente para uma decisão, não há porquê haver culpa. E é assim que deve ser. E nem sempre é. Porque as demandas por decisões também são distribuídas desigualmente. E as dores da sua suposta incapacidade só vão sumir quando você romper com a sua própria imagem.

Eu sei que você sempre me entalou a garganta. Que me fez vomitar. E eu sei que você sempre me fez saber que nunca estava bom, ainda que estivesse. A autodepreciação e a cultura de depreciar o outro. E eu também sei que os seus caprichos custam caro.

Dói ao sair porque ainda está em mim.

[E não sabemos ao certo
 o que há com vocês

 que vêm até mim]