domingo, 5 de julho de 2020

Pra onde corre esse rio?

Ele disse que

quando você ver

alguém chorando
não pense que pode
não queira fazê-la parar

chorar é liquidificar a dor

dar cor à tristeza que de qualquer maneira
nascerá 
não tente sufocar 
consolar não é dizer "não chore" 
é cavar no chão um leito a caminho do mar

é saber que a lágrima vem

de um lugar, de um tempo muito além
é a força que vem nos visitar
nos lembrar
que nada permanecerá 

o mesmo olho que chora

vê o verde nascendo lá fora
sente a força de uma semente
igual à certeza da gente

e os bichos na beira da água

sei que também sentem mágoa
só não conseguimos ver
pois ninguém os ensinou a esconder

pense na terra, no vento, na raíz

que um abacateiro não conhece país
pense num bicho no meio do mato
sujo e faminto em silêncio
apenas olhando o sol nascer.

--




Então eu disse

Que a minha dor possa ser água 
Que o sonho seja maior que a mágoa
Que eu me encontre em abrigo
Também em você, meu amigo

Olhando por aqueles espaços
Me vi um pouco em pedaços 
E me dói a vista da cidade
(Um pouco da minha idade)

Penso na terra, no vento e nas raízes
E em algumas das cicatrizes
É muita pedra para pouca garoa
Ainda que haja cousa boa

Nem minhas lágrimas 
Permeiam
Nesta terra

domingo, 7 de junho de 2020

Metamorfosear

De todas as metas, formas ou meios
A certeza do movimento
[Para onde o absurdo me levar]


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Ai, os ais - pt. s/n

Com as velas acesas já religiosamente e o emocional mostrando seu domínio, mil teorias conspiratórias passam pela mente paranóica. Ai, os ais! 

Ao olhar para aquela carta parada no seu mural, é relembrada dos tempos de prisão ou rehab DELES e se sente uma coisa pouca qualquer presa na sua própria umbiguice.  Que vai muito bem, obrigada. Ainda que pudesse melhorar. Refém dos seus medos. Um alvo fácil para uma tortura psicológica qualquer. Ai, os ais! 

E quando se exalta com a moça do banco, achando que ela é uma parte do banco quando você já foi o banco e odiou, revela seu lado mais (des?)controlado, mais classe média branca de Perdizes. Ai, os ais!

--

Sinto saudades. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ai, a vida pós moderna - pt. I

O que eu queria?

Bem, os algoritmos sabem de tudo. Melhor do que eu mesma. Pergunte a eles sobre a casa no campo sem a sensação de solidão e isolamento. Pergunte sobre o companheiro ou a companheira que partilhe sonhos, vontades e planos para o futuro. É uma questão de match - e não podemos mais confiar nos velhos métodos. Nós gostamos de nos enganar. Mas os algoritmos? Esses sabem de tudo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Desperdiçar

Inevitavelmente julgamos. Damos juízo de valor ao que está ou não está adequado, de acordo com a economia da nossa moralidade.

Eu bem me lembro, quando criança, a menina disse que queria viver a vida intensamente e eu disse que isso era falta de responsabilidade. E cá estamos, hoje, abraçando pelo medo ou pela consciência da finitude, cada pequeno segundo à nossa frente.

Se o volume do desperdício material pode ser facilmente mensurado (e, ainda assim, há quem o pratique), como fica o olhar sob o desperdício imaterial? 

O tempo, as ausências, 
As terríveis consequências 
As mudanças, ou não 
Os pensamentos em vão

Meus medos
Teus dedos
Co-ordenados
Experienciados

O gosto, as essências 
As novas vivências 
Tudo.
Menos a falta de possibilidades.


—

E o que será de nós? 

Nós 
somos o fim
do eu 
Mas vai passar
(?)






sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Das forças que atuam nas estruturas

Sabemos que depende do referencial, da direção, do sentido, se a carga é permanente ou acidental e do conceito de força. Saudade das aulas sobre resistência dos materiais. Aprendi tanto sobre a vida.

Acho que o passado, o presente e o futuro são forças atuantes nas nossas vidas. Influenciam a distribuição das cargas, sabe?

Perception *can be* a piece of reality.

E de todas as loterias, sortes e azares, físicas e metafísicas: estamos. E somos. Como em português gostamos de distinguir.

Entre todos os movimentos hipnóticos e fortalecedores, o agora me prende ou me solta. Ou me faz um carin. Ou reclama um tantin. E alimentamos o tempo. Que tem fome de vida. E nunca, nunca se sacia.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

E cá estamos

Ai, os não-lugares!

Da permissão para existir
O tal boleto a cumprir 
A minha abstenção - ou não 
[Que nada disso seja em vão]

Dos papéis herdados ou adquiridos
Das dores e golpes sofridos
As ausências e permanências
[O meu lugar nas ciências]

Pois cientes estão 
De uma existência
Sem qualquer resistência 
Ao uso das mãos 
Dos pés à cabeça 
Antes que eu me esqueça 

Cá estamos, 
E enfrentamos, 
Efemeramente
Artística e solenemente
O que há e o que não há

De onde estamos
Pra onde vamos
Que haja amor
 E algum juízo